"O cardeal D. José Saraiva Martins afirmou terça-feira à noite, na Figueira da Foz, que o casamento entre homossexuais não providencia uma educação normal a crianças a quem falta um pai e uma mãe" in SOLEu às vezes prefiro passar ao lado destes comentários, mas desta vez não consigo.
Primeiro, defina-se normalidade. O que é ser “normal”? É ter um pai e uma mãe? Se é ter um pai e uma mãe, ipsis verbis, então estas crianças são “normais” porque a Biologia dita que são precisas células estaminais femininas e masculinas para que seja gerada uma criança.
Só são “normais” as crianças criadas num lar com pai e mãe, conjuntamente? Então, caríssimos, estamos a olhar para um país de anormais, em crescimento! Isto porque as estatísticas revelam que os casais divorciam-se a uma razão de quase 50% dos novos casamentos. Além disso, a moda estatística das classes de aula em Portugal é filhos de pais divorciados - logo, uma horda de anormais.
Também podemos começar a discutir a disfuncionalidade das famílias: é sempre preferível ser criado numa casa com pai e mãe, mesmo que o pai bata na mãe, quando chega bêbado a casa?; ou quando a mãe está tão stressada com uma vida difícil (normalmente por causa do marido) que descarrega nos filhos, da pior forma?; ou (e agora privilegiando as famílias riquinhas) quando a mãe é uma tia desocupada e o pai uma figura ausente, em que os filhos são educados e criados pelas empregadas que populam as casas?
Podíamos continuar sem fim…
Senhor Cardeal, bem sei que essa é a posição da Igreja, a sua posição.
Mas como é que pode, em consciência, dizer tamanha alarvidade?
Eu acho que o sr. Cardeal já se esqueceu das confissões a que era obrigado ouvir quando não era Cardeal, confissões das pessoas católicas praticantes, confissões das pessoas reais que sofrem os problemas reais e disfuncionais da sociedade. Pessoas que se queixavam dos maridos e das mulheres, que são pobres e não têm esperança, pessoas cuja saída muitas vezes é o desespero…
Senhor Cardeal, para a próxima, em caso de dúvida, mantenha-se calado… ou fale do tempo, como os Ingleses.